A CARTA
“Quando o carteiro já não chega.”
de letras traçadas por
mão trêmula e lenta,
num papel bordado de
aromas antigos,
selada com juras de
eternidade.
Hoje, até o cão adormece em
desalento,
velando uma caixa vazia há
tanto tempo.
Ninguém mais se aproxima,
incauto,
correndo, assustado, no
eco do seu latido.
Não há cartas por receber,
nem saudades por enviar.
Copiam-se e colam-se palavras
sem alma,
sopradas pelo hálito
metálico da Inteligência Artificial,
entregues por um
mensageiro virtual.
Terá a realidade extinguido
o encanto?
Como se não bastasse o
desassossego de um rabisco,
três palavras lançadas ao
acaso do tempo,
deixadas ao relento sobre
a ferrugem de uma caixa —
uma doce mentira de amor;
um desamor efêmero
que se fez, enfim, amor verdadeiro
—
como, um dia, também o foi
o carteiro.
Natal, 19 de março de 2026
@poesiasdobeijaflor

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