Galeria de Postagens

domingo, 5 de julho de 2026

A CARTA

 

A CARTA

                                             “Quando o carteiro já não chega.”

 

 Não há mais como escrever aquela carta,

de letras traçadas por mão trêmula e lenta,

num papel bordado de aromas antigos,

selada com juras de eternidade.

 

Hoje, até o cão adormece em desalento,

velando uma caixa vazia há tanto tempo.

Ninguém mais se aproxima, incauto,

correndo, assustado, no eco do seu latido.

 

Não há cartas por receber,

nem saudades por enviar.

Copiam-se e colam-se palavras sem alma,

sopradas pelo hálito metálico da Inteligência Artificial,

entregues por um mensageiro virtual.

 

Terá a realidade extinguido o encanto?

Como se não bastasse o desassossego de um rabisco,

três palavras lançadas ao acaso do tempo,

deixadas ao relento sobre a ferrugem de uma caixa

uma doce mentira de amor; um desamor efêmero

que se fez, enfim, amor verdadeiro

como, um dia, também o foi o carteiro.

 

           

Natal, 19 de março de 2026

      @poesiasdobeijaflor      

Nenhum comentário:

Postar um comentário