ADORARIA
"Muitas vezes, o desejo de dar e receber estão em sentidos opostos "
Adoraria
falar-te, por um instante,
de lances bobos, de nada importante;
dessas coisas de homem para mulher.
Faria para
ti flor do asfalto;
Lamber-te-ia
feito um gato;
Possuir-te-ia
como um leão;
Dar-te-ia
o meu corpo,
do último cabelo ao dedão do pé;
Levar-te-ia
para um espaço irreal,
onde serias para sempre a minha
mulher.
Mas teu
olhar não vê o meu sorriso
e, se choro, não ouves a minha dor.
Minhas palavras, para ti, não fazem sentido,
são como gritos de socorro no deserto.
E, se te
vejo bem aqui, assim, tão perto,
eu me desconcerto,
mas nada posso fazer.
Adoraria
fazer com o vento cafuné no teu prazer;
mergulhar
nos teus pelos - floresta de sonhos;
desmanchar-me
em cascata sobre a tua pele molhada;
ver-te
extasiada, descansar e novamente recomeçar.
Gozar até não mais poder.
Mas o teu
querer não tem lugar para mim.
O teu
“não” é como música de sucesso:
eu nunca peço - detesto até! -
e, mesmo assim, tenho de ouvir.
Adoraria
ser teu homem objeto,
tão descartável quanto um lenço de papel;
ser teu
caso de uma noite de verão;
ser a
saideira no bar do teu coração;
ser a
bebedeira que já não lembras mais.
O que
resta das espumas do teu banho,
adoraria, pelo menos, ser.
Mas teus desejos são apenas de repulsa.
No teu
espaço não há lugar para a minha poesia.
No teu
entender, eu nada seria,
nem faria diferença o meu existir.
E por ser
assim, tão má e tão faceira,
não me permites embolar-me na tua teia;
não me fazes castelo de areia;
não me jogas no teu lixo;
não me fazes capricho teu.
E se fosse
eternizar apenas por um dia?
Mesmo
assim, o meu coração por teu bater pararia.
Viver
tudo, em cada segundo, é tudo que eu faria:
eu te amaria, idolatraria...
e adoraria até o fim.
Nilson Freire, Rio de Janeiro, 03 março de
1995.

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